O duende e o merceeiro

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Mensagempor SammySam » Sexta Out 16, 2009 23:54

Silver_Razorback Escreveu:
SammySam Escreveu:Staline. sim esse democrata, matou mais de 50 milhões dos seus... mas isso aparentemente já é de sangue.. os seus antecessores fizeram o mesmo para se poderem afirmar, como eu dizia deve ser de sangue...

Pena que se façam homenagens a esse tipo de animais em jornais tipo O Avante...
... mas pronto. Staline, o povo lol carne para canhão!

Infelizmente.. nesta ossa democracia continuamos na mesma senda.. carne para canhão... o Povo..

Ainda bem que podemos falar. discordar e não ser enviado para um qlq campo de férias na sibéria... :lol:



Oh se eu matasse 50 milhões queria ver se alguem falava mal de mim... era só respeitinho.

Só continuamos na mer** porque o povo português é mesmo do 'deixa andar'..sabem que estão mal, reclamam, mas fazer seja o que for está quieto. em qualquer outro país vê-se motins, revoltas, guerras civis... o povo está descontente e faz-se ouvir....aqui..aqui cochicha.se à vizinha do lado que estamos mal...mas vamos andando...

ainda não se querem mancar que a política só entende a lei da força..e sem união, isto vai andar assim mais uns bons aninhos. só falta pisarem-nos na rua em pleno dia, porque burocraticamente já nos pisam à muito.

e não nos enviam para um campo de 'férias' na Siberia porque era menos uma quinta de férias que compravam no algarve.


isto realmente já levava era um golpe de estado. a republica já se celebra à 99 ou 100 anos... e os bacanos do movimento monárquico já se começam a mexer. se houvesse armas tipo AK47 à venda nas mercearias isto andava como o Iraque.


ou não.

isto tem que se lhe diga. alguem discorda com a doninha?
http://www.youtube.com/watch?v=Rc03n51Injo


A democracia ainda assim é do melhor que se arranja. O Povo ordena, o povo depois.. têm o que merece.
Já dizia alguém que agora não me lembro... Não vota quem lê o jornal, vota quem utiliza o jornal para limpar o c*. Era prá aí qlq coisa assim...

Voltemos à literatura... :lol:
SammySam
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Mensagempor cmrosado » Segunda Fev 22, 2010 20:27

Amazónia, a última fronteira

(...)
No «hotel» esperavam-me duas visitas: a do inevitável funcionário do Vale do Rio Doce, que me vinha ralhar, indignado, por eu me ter ausentado um dia inteiro sem lhe dar conhecimento, e a do «seu» Junqueirão, o piloto e proprietário da avioneta que tínhamos contratado para a manhã seguinte. Foi com um profundo alívio e bastante surpresa que o vi apresentar-se. O Junqueirão era o boss e um dos dois pilotos da Junqueira Airlines, da qual o outro piloto era o Junqueirinha, o irmão mais novo.
(...)
Deus, que conhece o terror que eu tenho de andar de avião, sabe o calvário que passei durante aquele mês e meio na Amazónia, em época de chuvas, com céus de tempestade e baixas pressões constantes, voando em toda a espécie de aviões e aterrando nos mais inverosímeis «aeroportos». A Junqueira Airlines, porém, ultrapassou tudo o que eu mais temia, aquém do desastre fatal.
(...)
Ainda tentei dissuadir o Junqueirão de levantar voo, sugerindo-lhe que esperássemos para ver se o céu abria, mas ele respondeu tranquilamente: «Não tem problema, voamos por baixo disto. Vamos mas é apressar-nos».
(...)
Também o Junqueirão me preocupava: estava com uma conjuntivite tal que só abria um olho, o que afinal, não iria fazer grande diferença lá em cima, quando a visibilidade se reduziu a zero. Lá embarcámos todos, com o entusiasmo e a fé de quem caminha para o cadafalso. O Junqueirão acelerou a fundo, soltou o travão e partimos pela «pista» fora, aos saltos e às curvas, desesperadamente devagar. A 70 metros das árvores que começavam no final da pista, o Junqueirão deixou escapar entre dentes: «Esta mer** bem que vai pesada!» A 20 metros, puxou o manche e comecámos a elevar-nos, centimetro a centimetro, como na anedota do elefante voador («lá que voa, voa, mas muito rasteirinho!»). Eu ia sentado à frente, ao lado do Junqueirão, e não tive duvidas de que não passávamos. No ultimo instante, fechei os olhos, puxei a cabeça para trás e fiquei à espera do embate. Não aconteceu nada e arrisquei um olhar pela janela: planávamos sobre a copa das árvores, levantando uma nuvem de folhas em todas as direcções.
(...)
Ao contrário das previsões do Junqueirão, não chegamos a voar abaixo das nuvens nem cinco minutos. Ainda estávamos nós a ganhar altitude, quando fomos engolidos pela mais violenta tempestade tropical de que me lembro de ter visto. Deixámos imediatamente de distinguir o que quer que fosse, em qualquer direcção. As nuvens batiam no vidro do cockpit com uma tal força que eu me encolhia de terror e às vezes até fechava os olhos, incapaz de assistir àquele espectáculo.
O minúsculo avião saltava e dançava, derrapava de asa e avançava, como um bêbedo aos tropeções, sozinho e insignificante no interior de um pesadelo - porque aquilo só nos pesadelos é que acontece assim. Volta e meia, perdíamos a sustentação e caíamos umas dezenas de metros, com o Junqueirão em desespero a acelerar os motores para recuperar altitude. Quando as coisas começaram a ficar ainda mais negras, o Junqueirão pediu-me que fosse eu empurrar a alavanca do acelerador, enquanto ele, com um olho fechado, uma mão no manche e outra no microfone do rádio, tentava, sem sucesso, chamar qualquer torre de controlo amazónica. Escusado será dizer que, no banco de trás do avião, o silêncio era absoluto. Os meus dois companheiros de viagem deviam estar a rezar, de certeza, enquanto a pobre índia, sentada no chão, com um ar estarrecido, recebia um baptismo de ar inesquecível. A certa altura já me tinha desinteressado de tudo, estava tão cansado daquele terror, vivido segundo a segundo, que dei comigo a desejar que o inevitável acontecesse rápidamente. Mas durou meia hora aquela agonia. A sensação que tinha era que o Junqueirão, obviamente, não fazia a menor ideia de onde é que estávamos, nem sequer seguia qualquer rota. Subestimei, afinal. Não dei o devido valor às lendas que correm sobre os pilotos da Amazónia, umas das mais extraordinárias elites da aviação mundial, testados em dezenas de tempestades, de aterragens forçadas e, às vezes, em acidentes - nos quais um daqueles aviõezinhos se perde em média todos os dias.
De repente, tal qual o milagre de Fátima, vejo ao longe uma abertura no mar compacto de nuvens negras, à nossa frente. Apontei-a ao Junqueirão, que já dirigia para lá o avião. E foi então que distingui, exactamente na mesma direcção e uns três quilómetros à nossa frente, a pista de aterragem do aeródromo de Carajás, o nosso local de destino. Hei de morrer sem saber se foi pura sorte ou um prodígio de navegação daquele zarolho, que sem qualquer ajuda rádio nem consulta aos mapas, com uma visibilidade de zero absoluto desde a descolagem, acertara em cheio na pista, à altitude ideal e na rota correcta para fazer a aproximação e aterrar. Só sei que, quando finalmente me vi no chão e olhei aparvalhado a tempestade passar logo acima das nossas cabeças, caí nos braços do Junqueirão e jurei-lhe, com toda a sinceridade, que não me restavam dúvidas de que tinha tido o privilégio de voar com o melhor piloto do mundo. O Junqueirão sorriu, desvanecido, foi ao bolso dos jeans, sacou de um cartão de visita engordurado da Junqueira Airlines e disse-me: «Me recomenda aos teus amigos, tá?»

Miguel Sousa Tavares (Sul)
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