O duende e o merceeiro

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O duende e o merceeiro

Mensagempor SammySam » Sábado Jul 11, 2009 0:10

Era uma vez um estudante, um Autêntico estudante; vivia num sótão e não possuía nada. E era uma vez um merceeiro, um autêntico merceeiro; vivia no rés-do-chão e era dono do prédio inteiro. E foi por isso que o duende decidiu morar com o merceeiro. Além disso, todos os Natais recebia uma tigela de papa de aveia com um grande pedaço de manteiga lá dentro. O merceeiro tinha posses para isso, de maneira que o duende continuava a morar na loja. Há por aqui algures uma moral, se a procurarem bem.
Uma noite, o estudante entrou na mercearia pela porta das traseiras para comprar um pedaço de queijo e velas. Fez as compras e depois pagou, e o merceeiro e a mulher acenaram-lhe com a cabeça e disseram «boa noite». A mulher, contudo, era bem capaz de fazer mais do que acenar; era muito faladora — falava, falava, falava. Tinha o que se chama o hábito de falar pelos cotovelos, disso não havia dúvida. O estudante também fez um aceno — e foi nessa altura que viu qualquer coisa escrita no papel que embrulhava o queijo e parou para ler. Era uma página de um velho livro de poemas, uma página que nunca devia ter sido arrancada.
— Tenho aqui mais desse livro, se quiser — disse o merceeiro. — Dei a uma velhota alguns grãos de café por ele. Pode ficar com o resto por seis dinheiros, se estiver interessado.
— Obrigado — respondeu o estudante. — Dê-mo em vez do queijo. Passo bem só com pão. É uma pena usar um livro destes para papel de embrulho! O senhor é muito boa pessoa e bastante prático, mas percebe tanto de poesia como aquela banheira ali ao canto.
Ora isto foi uma frase indelicada, especialmente aquela parte respeitante à banheira, mas o merceeiro riu-se, e o estudante também; afinal de contas, fora apenas uma brincadeira. Mas o duende ficou aborrecido por alguém se atrever a falar assim com o merceeiro — ainda por cima o senhorio, uma pessoa importante que era dono do prédio todo e vendia manteiga da melhor qualidade.

Nessa noite, quando a loja estava fechada e toda a gente, excepto o estudante, estava na cama, o duende entrou no quarto do merceeiro em bicos de pés e roubou à mulher do merceeiro o dom de falar pelos cotovelos, porque ela não precisava dele enquanto dormia. A seguir, fez com que cada objecto em que tocava ficasse capaz de exprimir as suas opiniões tão bem como a mulher do merceeiro. Mas só podia falar um de cada vez, o que era uma bênção, se não desatavam todos a falar ao mesmo tempo.
Primeiro, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos à banheira onde se guardavam os jornais velhos.
— É mesmo verdade que não percebes nada de poesia? — perguntou.
— Claro que percebo! — respondeu a banheira. — A poesia é uma coisa que vem no fim das folhas dos jornais e que as pessoas costumam recortar. Acho até que tenho mais poesia dentro de mim do que o estudante; e, apesar disso, sou apenas uma humilde banheira, comparada com o merceeiro.
Depois, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos ao moinho de café. Meu Deus, que chinfrineira! Depois, deu-o ao pote de manteiga, e depois à caixa registadora. Todos eram da mesma opinião da banheira e as opiniões da maioria têm de ser respeitadas.
— Agora posso pôr o estudante no seu lugar! — exclamou o duende.

E lá foi em bicos de pés, pela escada das traseiras acima, até ao sótão onde morava o estudante. Havia luz lá dentro. O duende espreitou pelo buraco da fechadura e viu o estudante a ler o velho livro da loja.
Que grande claridade havia no quarto! Do livro saía um brilhante raio de luz, que se tornou num tronco de árvore, de uma nobre árvore que subiu e espalhou os seus ramos por cima do estudante. As folhas eram novas e verdes, e cada flor tinha o rosto de uma linda rapariga, algumas com olhos escuros e misteriosos e outras com olhos azuis cintilantes. Cada fruto era uma estrela luminosa e o ar estava impregnado de um belo som de canções.
O duende nunca tinha visto nem ouvido falar de tais maravilhas; e muito menos seria capaz de as imaginar. Portanto, ficou ali à porta, em bicos de pés, a espreitar, de olhos muito abertos, até que a luz se apagou. O estudante devia ter assoprado a vela e ido para a cama — mas o duende continuava sem ser capaz de arredar pé. Parecia-lhe ouvir a linda música, que ainda ecoava no ar, ajudando o estudante a adormecer.
— Isto custa a crer — murmurou o duende para consigo. — Nunca esperei nada do género. Acho que vou ficar no sótão com o estudante. — Depois pensou um bocado e suspirou: — Tenho de ser sensato; o estudante não tem papas de aveia.
E portanto, é claro, voltou para baixo, para a mercearia. Ainda bem que o fez, porque a banheira tinha quase esgotado o dom de falar pelos cotovelos, contando todas as notícias dos jornais que estavam guardados dentro dela. Tinha falado para um lado e estava prestes a virar-se para o outro e a continuar quando o duende devolveu o dom de falar pelos cotovelos à mulher do merceeiro adormecida. E, a partir dessa altura, todas as coisas da loja, desde a caixa registadora até à lenha, seguiram as opiniões da banheira; tinham-lhe tanto respeito que, depois daquilo, quando o merceeiro lia nos jornais críticas de peças ou de livros, pensavam que ele tinha aprendido tudo com a banheira.

Mas o duende já não aguentava ficar ali sentado a ouvir toda a sabedoria e bom senso pronunciados na loja; assim que via luz através das frinchas da porta do sótão, parecia ser atraído para lá por cordelinhos, e tinha de subir a escada e pôr-se a espreitar pelo buraco da fechadura. Sempre que o fazia, sentia-se invadido por uma sensação de indizível grandeza — a espécie de sensação que se tem quando se vê o mar encapelado com ondas tão fortes que o próprio Deus podia vir montado nelas! Que maravilha seria sentar-se debaixo da árvore com o estudante! Mas era impossível.
Entretanto, contentava-se com o buraco da fechadura. Olhava através dele todas as noites, ali parado no patamar deserto, mesmo quando o vento do Outono começou a soprar pela clarabóia, fazendo-o quase morrer de frio. Mas ele nem o sentia até a luz se apagar no quartinho do sótão e a música se calar a pouco e pouco, ficando apenas o uivar do vento. Brr! Então, sentia como estava gelado e descia sem fazer barulho para o seu canto secreto da loja, quente e confortável. Em breve viria a tigela de papas de aveia do Natal, com o seu grande pedaço de manteiga. Sim, o merceeiro era a escolha certa.

Mas uma noite, já bem tarde, o duende acordou com uma grande agitação à sua volta. Estavam pessoas a bater nos estores, o guarda-nocturno apitava: havia fogo, e toda a rua parecia estar em chamas. Que casa é que estava a arder? Aquela ou a do lado? Onde era o fogo? Que gritos! Que pânico! Que agitação! A mulher do merceeiro estava tão desorientada que tirou os brincos de ouro das orelhas e meteu-os num bolso, para salvar pelo menos alguma coisa... O merceeiro foi a correr buscar os seus valores, a criadita foi buscar o seu xaile de seda que tinha comprado com o ordenado. Toda a gente foi a correr buscar aquilo a que dava mais valor.
E o duende fez o mesmo. Num pulo ou dois subiu a escada e entrou no quarto do estudante, que estava calmamente à janela, vendo o incêndio na casa em frente. O duende pegou no livro maravilhoso, que estava em cima da mesa, meteu-o dentro do boné vermelho e agarrou-se a ele com os dois bracitos. A coisa mais preciosa da casa estava salva!
Depois, foi a correr para cima do telhado, mesmo para o alto da chaminé, e ficou ali sentado, iluminado pelas chamas da casa a arder do outro lado da rua, sempre firmemente agarrado ao boné vermelho com o tesouro lá dentro.
Agora sabia para onde o seu coração o puxava: estudante?, merceeiro? — a escolha era clara.
Mas, quando o fogo ficou extinto e o duende já tinha tido tempo para pensar com mais calma, bem...
— Divido o tempo entre eles — decidiu. — Não sou capaz de abandonar o merceeiro, por causa das papas de aveia.
Mesmo coisa de ser humano, francamente! Também nós gostamos de nos dar bem com o merceeiro por causa das papas de aveia.

Hans Christian Andersen

:nada: :yap:

:wink:
SammySam
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Mensagempor alr_tech » Sábado Jul 11, 2009 23:01

boas

de treta tem pouco... :wink:

cumps
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Mensagempor SkyRunner » Domingo Jul 12, 2009 22:29

É bem...

;)
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Mensagempor cmrosado » Sexta Jul 17, 2009 10:31

Há muitos, muitos anos a LOUCURA resolveu convidar os seus amigos mais intimos para um lanche em sua casa.
Todos os convidados foram. Após o lanche, a LOUCURA propôs: - Vamos brincar às escondidas ?
- Às escondidas ? O que é isso ? - perguntou a CURIOSIDADE.
- É uma brincadeira. Eu conto até cem e vocês escondem-se. Quando acabar de contar, vou procurar-vos, e o primeiro a ser encontrado que não chegue a este local primeiro que eu, será o próximo a contar.
Todos aceitaram brincar, menos o MEDO e a PREGUIÇA - 1,2,3,... começou a LOUCURA a contar.
A PRESSA foi a primeira a esconder-se, num lugar qualquer.
A TIMIDEZ, timida como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore.
A ALEGRIA correu para o meio do jardim.
Já a TRISTEZA começou a chorar, pois não encontrava um local apropriado para se esconder.
O OPORTUNISMO foi atrás do TRIUNFO e escondeu-se perto dele, debaixo duma pedra, enquanto a INVEJA os vigiava de perto.
A LOUCURA continuava a contar e os seus amigos iam-se escondendo.
O DESESPERO ficou completamente desesperado ao ver que a LOUCURA já estava nos noventa e nove.
- Cem ...!!! - gritou a LOUCURA. - Vou começar a procurar ...


A primeira a aparecer foi a CURIOSIDADE, que já não aguentava mais, querendo saber quem seria o primeiro a contar.
Ao olhar para o lado, a LOUCURA viu a DUVIDA em cima de uma cerca sem saber em qual dos lados ficar para melhor se esconder.
E assim foram aparecendo a ALEGRIA, a TRISTEZA, a TIMIDEZ...
Quando estavam todos reunidos, a CURIOSIDADE perguntou:
- Onde está o AMOR ?
Ninguém o tinha visto. A LOUCURA começou a procura-lo.
Procurou no cimo da montanha, nos rios, debaixo das pedras ... em todos os lados e nada do AMOR aparecer.
A LOUCURA viu então uma roseira, para não se magoar pegou num pauzinho e comecou a procurar entre os galhos.
De repente ouviu um grito. Era o AMOR. Gritava porque os espinhos da roseira que a LOUCURA agitava tinham-lhe furado os olhos.
A LOUCURA ficou sem saber o que fazer. Sentia-se culpada do acidente.
Pediu desculpas, chorou, implorou ao AMOR que lhe perdoasse e até prometeu segui-lo para sempre.
O AMOR coitado, aceitou as desculpas.
E ainda hoje, o AMOR é cego e a LOUCURA acompanha-o sempre.
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Mensagempor SammySam » Sábado Jul 18, 2009 3:57

Acho que prefiro os contos de Hans Christian Andersen
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Mensagempor cmrosado » Sábado Jul 18, 2009 8:27

LOL.
Toma lá mais três então a ver se gostas de algum:

Se…

Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.
Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas
Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
e sem um discurso de superioridade
Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos teus mestres
Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos teus objectivos
Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo
Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo
Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem balbuciar uma palavra sobre a tua perda.

Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
“Aguenta-te!”
Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente
Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender
Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado
Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam
Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling
Editado pela última vez por cmrosado em Sábado Jul 18, 2009 8:33, num total de 1 vez.
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Mensagempor cmrosado » Sábado Jul 18, 2009 8:28

O GAROTINHO
Helen E. Buckley

Uma vez um garotinho foi para a escola.
Ele era bem um garotinho
E a escola era bem grande.
Mas quando o garotinho
Viu que podia ir para a sua sala
Caminhando diretamente da porta lá de fora,
Ele ficou feliz
E a escola não parecia
Tão grande assim !

Numa manhã,
Quando o garotinho esta há pouco na escola,
a professora disse:
- “Hoje nós vamos fazer um desenho”.
- “Bom!” pensou o garotinho.
Ele gostava de desenhar,
Ele podia fazer todas as coisas:
Leões e tigres,
Galinhas e vacas,
Trens e barcos...
E pegou sua caixa de lápis
E começou a desenhar.
Mas a professora disse:
-“Esperem!
Não é hora de começar!”.
E ela esperou até que todos estivessem prontos.
-”Agora”, disse a professora,
“Nós vamos desenhar flores”.
- “Bom!”pensou o garotinho.
Ele gostava de desenhar flores
E começou a fazer bonitas flores com lápis rosa, laranja e azul.
Mas a professora disse:
- “Esperem!
Eu mostrarei como se faz”.
E era vermelha, com haste verde.
-”Aí !., disse a professora,
“Agora vocês podem começar”.

O garotinho olhou a flor da professora
Então, olhou para a sua,
Ele gostava mais da sua flor do que a da professora,
Mas ele não revelou isso.
Ele apenas guardou seu papel.

E fez uma flor como a da professora.
Era vermelha, com a haste verde.

Outro dia:
Quando o garotinho abria a porta lá de fora,
A professora disse:
- “Hoje nós vamos trabalhar com argila”.
- “Bom”!, pensou o garotinho
Ele podia fazer todos os tipos de coisas com argila:
Cobras e bonecos de neve,
Elefantes e robôs,
Carros e caminhões...

E começou a puxar e amassar
A bola de argila,
Mas a professora disse:
- “Esperem: Não é hora de começar”!
E ela esperou até que todos estivessem prontos.
- “Agora”, disse a professora,
“Nós vamos fazer uma travessa”.
- “Bom”!, pensou o garotinho.
Ele gostava de fazer travessas.
E começou a fazer algumas
De diferentes tamanhos e formas.
Mas a professora disse:
- “Esperem ! E eu lhes mostrarei como fazer
Uma travessa funda”.
- “Aí !, disse a professora.
“Agora podem começar”!.

O garotinho olhou para a travessa da professora
Então, olhou as suas.
Ele gostava mais das suas do que as da professora.
Mas não revelou isso.
Ele apenas amassou a sua argila, numa grande bola,
E fez uma travessa como a da professora,
Que era uma travessa funda.

E logo,
O garotinho aprendeu a esperar,
A observar,
E a fazer coisas como a professora.
E logo,
Ele não fazia as coisas por si mesmo.

Então aconteceu
Que o garotinho e sua família
Mudaram para outra casa,
Numa outra cidade,
E o garotinho
Teve que ir para outra escola.

Essa escola era ainda maior
Do que a primeira,
Então havia porta lá fora
Para a sua sala.
Ele tinha que subir alguns degraus
E seguir por um corredor comprido,
Para chegar à sua sala.

E justamente no primeiro dia,
Que ele estava lá,
A professora disse:
- “Hoje nós vamos fazer um desenho”.
- “Bom”! pensou o garotinho
E esperou pela professora
Para dizer-lhe o que fazer.
Mas ela não disse nada.
Apenas andou pela sala.
Quando aproximou-se do garotinho
Ela disse:
- “Você não vai desenhar”?
- “Sim”, disse o garotinho,
“Mas o que vamos fazer”?
- “Eu não sei, até que você o faça”, disse a professora.
- “Como eu farei”?, perguntou o garotinho.
- “Por quê”? disse a professora. “Do jeito que você quiser”.
- “E de qualquer cor”? perguntou ele.
- “De qualquer cor”, disse a professora.
“Se todos fizessem o mesmo desenho
E usassem as mesmas cores,
Como eu poderia saber que fez o quê,
Qual era qual”?
- “Eu não sei”, disse o garotinho.
E começou a fazer uma flor vermelha, com a haste verde.
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Mensagempor cmrosado » Sábado Jul 18, 2009 8:31

VIAJAR

Ia viajar...viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala.
(...) Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, cento e quarenta salas revestidas até aos tectos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, nudezas, sombrias manchas de betume, tristeza das formas imóveis!... E o dia mais doce foi, quando em Veneza, encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o José, o Visconde do Bom Sucesso e as Limas da Boavista... Gastei seis mil francos.
Tinha viajado.

Eça de Queiroz in 'Viajei'
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Mensagempor SammySam » Domingo Jul 19, 2009 1:44

[quote="cmrosado"]VIAJAR

Ia viajar...viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala.
(...) Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, cento e quarenta salas revestidas até aos tectos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, nudezas, sombrias manchas de betume, tristeza das formas imóveis!... E o dia mais doce foi, quando em Veneza, encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o José, o Visconde do Bom Sucesso e as Limas da Boavista... Gastei seis mil francos.
Tinha viajado.


A expressão "toma" não é mais do que uma expressão de satisfação. E neste caso, demonstrada logo à partida pelo remetente..

...e o pequeno José Maria foi registado como filho de "mãe incógnita, ele próprio projectou uma série de novelas, tipo se n me engano:
Cenas Portuguesas

Continuo a preferir os contos do outro gajo...

Mas... continua, vais vêr que, numa de esforço, no mínimo ainda me arregalas os olhos..
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Mensagempor cmrosado » Quarta Jul 22, 2009 9:32

Miguel Torga:

É uma pena que os montes não falem, não dialoguem nem testemunhem. Estes meus, pelo menos. Além da emoção de os ouvir responder ao monólogo que o silêncio em que vivem apagou nos meus lábios e tornou interior, gostaria sobretudo de saber se fica na alma deles, como na minha, a marca indelével de cada um dos nosso encontros. É de tal modo apertado e medular o abraço que damos, tão íntima a comunhão que nos une horas a fio, que não me resigno à ideia de que só do meu lado haja consciência, e do outro o amor seja passivo. Mas estou condenado à incerteza. E quando regresso a casa, depois de os calcorrear, pareço um namorado infeliz: olho da janela, roído de ciúmes, o crepúsculo que os envolve, e passo a noite a sonhar o milagre de uma palavra que seria, como em todas as paixões, o bálsamo de uma chaga aberta e o começo do desencanto.
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Mensagempor SammySam » Sábado Jul 25, 2009 2:32

Platão:

Tudo aquilo que engana parece libertar um encanto.


Quanto maior se é, mais repetido se é. Platão, Aristóteles, Kant, quantos outros... Ainda se não calaram nos que deles falaram. E é possível que só se calem quando a espécie humana se calar.

Vergílio Ferreira
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Mensagempor cmrosado » Sábado Jul 25, 2009 6:45

Uma mosca sem valor
Pousa c'o a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria

Antonio Aleixo (poeta popular)
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Mensagempor SammySam » Domingo Jul 26, 2009 0:32

Platão:

Tudo aquilo que engana parece libertar um encanto...
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Mensagempor SammySam » Domingo Jul 26, 2009 5:15

cmrosado Escreveu:O GAROTINHO
Helen E. Buckley

Uma vez um garotinho foi para a escola.
Ele era bem um garotinho
E a escola era bem grande.
Mas quando o garotinho
Viu que podia ir para a sua sala
Caminhando diretamente da porta lá de fora,
Ele ficou feliz
E a escola não parecia
Tão grande assim !

Numa manhã,
Quando o garotinho esta há pouco na escola,
a professora disse:
- “Hoje nós vamos fazer um desenho”.
- “Bom!” pensou o garotinho.
Ele gostava de desenhar,
Ele podia fazer todas as coisas:
Leões e tigres,
Galinhas e vacas,
Trens e barcos...
E pegou sua caixa de lápis
E começou a desenhar.
Mas a professora disse:
-“Esperem!
Não é hora de começar!”.
E ela esperou até que todos estivessem prontos.
-”Agora”, disse a professora,
“Nós vamos desenhar flores”.
- “Bom!”pensou o garotinho.
Ele gostava de desenhar flores
E começou a fazer bonitas flores com lápis rosa, laranja e azul.
Mas a professora disse:
- “Esperem!
Eu mostrarei como se faz”.
E era vermelha, com haste verde.
-”Aí !., disse a professora,
“Agora vocês podem começar”.

O garotinho olhou a flor da professora
Então, olhou para a sua,
Ele gostava mais da sua flor do que a da professora,
Mas ele não revelou isso.
Ele apenas guardou seu papel.

E fez uma flor como a da professora.
Era vermelha, com a haste verde.

Outro dia:
Quando o garotinho abria a porta lá de fora,
A professora disse:
- “Hoje nós vamos trabalhar com argila”.
- “Bom”!, pensou o garotinho
Ele podia fazer todos os tipos de coisas com argila:
Cobras e bonecos de neve,
Elefantes e robôs,
Carros e caminhões...

E começou a puxar e amassar
A bola de argila,
Mas a professora disse:
- “Esperem: Não é hora de começar”!
E ela esperou até que todos estivessem prontos.
- “Agora”, disse a professora,
“Nós vamos fazer uma travessa”.
- “Bom”!, pensou o garotinho.
Ele gostava de fazer travessas.
E começou a fazer algumas
De diferentes tamanhos e formas.
Mas a professora disse:
- “Esperem ! E eu lhes mostrarei como fazer
Uma travessa funda”.
- “Aí !, disse a professora.
“Agora podem começar”!.

O garotinho olhou para a travessa da professora
Então, olhou as suas.
Ele gostava mais das suas do que as da professora.
Mas não revelou isso.
Ele apenas amassou a sua argila, numa grande bola,
E fez uma travessa como a da professora,
Que era uma travessa funda.

E logo,
O garotinho aprendeu a esperar,
A observar,
E a fazer coisas como a professora.
E logo,
Ele não fazia as coisas por si mesmo.

Então aconteceu
Que o garotinho e sua família
Mudaram para outra casa,
Numa outra cidade,
E o garotinho
Teve que ir para outra escola.

Essa escola era ainda maior
Do que a primeira,
Então havia porta lá fora
Para a sua sala.
Ele tinha que subir alguns degraus
E seguir por um corredor comprido,
Para chegar à sua sala.

E justamente no primeiro dia,
Que ele estava lá,
A professora disse:
- “Hoje nós vamos fazer um desenho”.
- “Bom”! pensou o garotinho
E esperou pela professora
Para dizer-lhe o que fazer.
Mas ela não disse nada.
Apenas andou pela sala.
Quando aproximou-se do garotinho
Ela disse:
- “Você não vai desenhar”?
- “Sim”, disse o garotinho,
“Mas o que vamos fazer”?
- “Eu não sei, até que você o faça”, disse a professora.
- “Como eu farei”?, perguntou o garotinho.
- “Por quê”? disse a professora. “Do jeito que você quiser”.
- “E de qualquer cor”? perguntou ele.
- “De qualquer cor”, disse a professora.
“Se todos fizessem o mesmo desenho
E usassem as mesmas cores,
Como eu poderia saber que fez o quê,
Qual era qual”?
- “Eu não sei”, disse o garotinho.
E começou a fazer uma flor vermelha, com a haste verde.


Excelente. Mas olha, não vás aos sites Brazileiros (indicação dada por um especialista) :lol:


The Little Boy
by Helen Buckley



Once a little boy went to school.
He was quite a little boy
And it was quite a big school.
But when the little boy
Found that he could go to his room
By walking right in from the door outside
He was happy;
And the school did not seem
Quite so big anymore.

One morning
When the little boy had been in school awhile,
The teacher said:
"Today we are going to make a picture."
"Good!" thought the little boy.
He liked to make all kinds;
Lions and tigers,
Chickens and cows,
Trains and boats;
And he took out his box of crayons
And began to draw.

But the teacher said, "Wait!"
"It is not time to begin!"
And she waited until everyone looked ready.
"Now," said the teacher,
"We are going to make flowers."
"Good!" thought the little boy,
He liked to make beautiful ones
With his pink and orange and blue crayons.
But the teacher said "Wait!"
"And I will show you how."
And it was red, with a green stem.
"There," said the teacher,
"Now you may begin."

The little boy looked at his teacher's flower
Then he looked at his own flower.
He liked his flower better than the teacher's
But he did not say this.
He just turned his paper over,
And made a flower like the teacher's.
It was red, with a green stem.

On another day
When the little boy had opened
The door from the outside all by himself,
The teacher said:
"Today we are going to make something with clay."
"Good!" thought the little boy;
He liked clay.
He could make all kinds of things with clay:
Snakes and snowmen,
Elephants and mice,
Cars and trucks
And he began to pull and pinch
His ball of clay.

But the teacher said, "Wait!"
"It is not time to begin!"
And she waited until everyone looked ready.
"Now," said the teacher,
"We are going to make a dish."
"Good!" thought the little boy,
He liked to make dishes.
And he began to make some
That were all shapes and sizes.

But the teacher said "Wait!"
"And I will show you how."
And she showed everyone how to make
One deep dish.
"There," said the teacher,
"Now you may begin."

The little boy looked at the teacher's dish;
Then he looked at his own.
He liked his better than the teacher's
But he did not say this.
He just rolled his clay into a big ball again
And made a dish like the teacher's.
It was a deep dish.

And pretty soon
The little boy learned to wait,
And to watch
And to make things just like the teacher.
And pretty soon
He didn't make things of his own anymore.

Then it happened
That the little boy and his family
Moved to another house,
In another city,
And the little boy
Had to go to another school.
This school was even bigger
Than the other one.
And there was no door from the outside
Into his room.
He had to go up some big steps
And walk down a long hall
To get to his room.
And the very first day
He was there,
The teacher said:
"Today we are going to make a picture."
"Good!" thought the little boy.
And he waited for the teacher
To tell what to do.
But the teacher didn't say anything.
She just walked around the room.

When she came to the little boy
She asked, "Don't you want to make a picture?"
"Yes," said the lttle boy.
"What are we going to make?"
"I don't know until you make it," said the teacher.
"How shall I make it?" asked the little boy.
"Why, anyway you like," said the teacher.
"And any color?" asked the little boy.
"Any color," said the teacher.
"If everyone made the same picture,
And used the same colors,
How would I know who made what,
And which was which?"
"I don't know," said the little boy.
And he began to make a red flower with a green stem.


é que Trens e caminhões... :roll:
SammySam
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Mensagempor cmrosado » Segunda Jul 27, 2009 10:11

Não fui a um site brasileiro. Tenho esse texto guardado e já não me lembro onde o fui buscar ou se alguem mo enviou.

Não disse nada acerca dessa citação do Platão mas por acaso não compreendo muito bem o que quer dizer (ou então não concordo).
cmrosado
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